x

Informações Rápidas

O Objetivo Sorocaba é uma instituição de ensino particular que possui três unidades na cidade:

Centro Portal Zona Norte

Atendemos alunos do Berçário ao Pré-vestibular.

Fone: (15) 3332.9900

Siga-nos também em: Facebook.com/objetivosor

Blog Cultural

Selecione uma categoria

20
10

Mar de histórias

Por Nelson Fonseca Neto

"Roque Santeiro". "Avenida Brasil". "Carrossel". "Chiquititas". "Breaking Bad". "Mad Men". "Família Soprano". "Cidadão Kane". "Psicose". "Dom Quixote". "Odisseia". "Vidas secas". Óperas. Exemplos que comprovam uma grande verdade: nossa fome por histórias é insaciável.

"Na literatura, entre tanta coisa boa, há algumas obras que mostram de forma mais convincente (e comovente) que somos famintos por histórias."

Pode ser um bando reunido perto da fogueira. Pode ser a mãe contando histórias para o filho à noite. Pode ser uma ópera vistosa. Pode ser um romanção de quase mil páginas. Pode ser um monte de coisas. O que importa é reconhecer que as histórias são cruciais. Não são meros adereços ou um luxo do qual podemos abrir mão. Elas, as histórias, são preciosas armas de que dispomos para a travessia da vida. Sem elas, o mundo seria de uma pobreza indescritível.

Na literatura, entre tanta coisa boa, há algumas obras que mostram de forma mais convincente (e comovente) que somos famintos por histórias. Sendo mais claro: são obras oceânicas, construídas a partir de uma quantidade formidável de histórias. Exemplos dessa linhagem nobre: "Os contos das mil e uma noites"; "Decameron" (Boccaccio); "Os contos da Cantuária" (Chaucer). Os três monumentos usam a "narrativa em moldura" para nos encantar. Mas o que é "narrativa em moldura"? Simples: é a história que tem a narrativa principal e que, a partir disso, vai embutindo outras narrativas. Podemos, aqui, fazer a comparação com a "matriochka", aquele brinquedo russo em que uma bonequinha vai entrando na outra. A narrativa em moldura é a boneca grande (história principal) que comporta várias outras bonequinhas (histórias menores). E o efeito disso? A vertigem.

Também podemos dizer que as obras mencionadas acima são uma celebração da arte de contar histórias. Vejam só. Nos "Contos das mil e uma noites", a narrativa principal mostra Sherazade contando várias histórias, noite após noite, para o sultão, a fim de salvar a vida das demais moças da localidade, pois, enfurecido, ele decidira casar com uma moça por noite e matá-la na manhã seguinte. Tudo por conta de uma decepção amorosa que ele sofrera. Ardilosamente, Sherazade, na noite de núpcias, começa a contar uma história e a interrompe no clímax. Curioso, o sultão decide não matar Sherazade na manhã seguinte, prometendo a si mesmo assassiná-la quando a história estiver concluída. Só que Sherazade vai amarrando uma história na outra, e a execução sempre é adiada. Em sucessivas noites, nossa grande narradora trata de tudo um pouco: histórias sérias; histórias cômicas; histórias de amor; histórias de pobreza; histórias de riqueza. Sherazade entrega o mundo ao sultão. E, assim, narrando, ela salva a própria vida e a de muitas outras moças. Impossível não ficar comovido com essa postura que é mistura de coragem com delicadeza.

A delícia de se mergulhar em histórias também se faz presente no "Decameron" e nos "Contos da Cantuária". Neles também encontramos a narrativa em moldura. Só que, no primeiro, há os jovens de Florença que decidem fugir da peste e se refugiar nas cercanias da cidade. Como forma de passar o tempo, instauram um jogo em que, a cada dia, um membro do grupo é uma espécie de líder que escolhe o tema sobre o qual as histórias dos demais devem tratar. Há, nesse processo, de tudo um pouco, do grotesco ao sublime, do cômico ao trágico. Também, aqui, ficamos com a impressão de que Boccaccio escreveu sobre tudo deste mundo. A moldura dos "Contos da Cantuária" é menos sombria. São devotos em peregrinação. Para que a viagem seja menos breve, o Albergueiro decide instituir um torneio de histórias. Cada membro da comitiva deve contar algo, com total liberdade. O resultado? Histórias para todos os gostos. Do choro ao riso, saímos de alma leve.

Três exemplos de livros oceânicos. Impossível resistir aos seus encantos. Olhar para o mar não é das coisas mais prazerosas nesta vida?

Comentários