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Machado de Assis: porta de entrada

Por Nelson Fonseca Neto

Cada país tem seu escritor monumental. França e Victor Hugo. Inglaterra e Shakespeare. Alemanha e Goethe. Rússia e Tolstói. Argentina e Borges. Colômbia e Gabriel Garcia Márquez. Espanha e Cervantes. Itália e Dante. E por aí vai.

Aposto que vocês, em se tratando de Brasil, estão pensando em Machado de Assis. Se pensaram nele, acertaram. Ele é mesmo o nosso gigante. Só que temos um problema: a distância enorme entre saber que Machado é o nosso maior escritor e ler com paixão sua obra.

Várias são as tentativas para explicar essa situação lamentável. Educação sucateada. Sociedade cada vez mais bitolada nas engenhocas tecnológicas. Enorme distância entre o século XIX e o século XXI. Dificuldade do texto. Em suma: encontramos facilmente justificativas. O que é uma pena. Machado de Assis é um companheiro dos mais interessantes.

"É impressionante. Machadinho vai contando as coisas e lançando piscadelas ao leitor. É batata. Coisa de poucas páginas, sentimos que somos amigos do homem".

Nosso gigante, permitam-me a comparação, é uma casa enorme, com uma porta de entrada e algumas janelas. Falta de educação entrar na casa de alguém pela janela, não? Concordamos, que bom! Mas qual é a porta de entrada? Eu diria que é algo inconfundível. Algo presente em quase todos os textos de Machado de Assis: o tom de conversa agradável.

É impressionante. Machadinho vai contando as coisas e lançando piscadelas ao leitor. É batata. Coisa de poucas páginas, sentimos que somos amigos do homem. Tudo estaria bem se ele apenas narrasse amenidades. Só que é justamente o oposto. Ele conta cada coisa escabrosa! E dá-lhe exemplos de sadismo, de adultério, de violências contra os mais fracos, de falcatruas, de embromações, de golpes, de ganância sem fim. A lista é vasta. Vasta e desconcertante.

Mencionei há pouco a porta de entrada para visitarmos Machado. É o estilo. Muito bem. E as janelas? Algumas janelas. Uma delas é o retrato da história do Brasil. Levados por Machado, compreendemos a Independência, a maldita escravidão, a fervilhante sociedade do século XIX, os primeiros passos da República.

Outra janela é a radiografia da alma humana. Vocês sabem muito bem que o ser humano é abismo. Somos sublimes e somos grotescos. Michelângelos e bandidos sanguinários. Machadinho não brincou em serviço e trouxe os esqueletos que as pessoas escondem nos armários. Não somente ele fez isso: todo grande artista é o explorador das coisas que desejamos esconder.

Outra janela é o diálogo que ele estabelece com outros autores. Bíblia. Cervantes. Shakespeare. Homero. Dramaturgos gregos. Dante. Molière. Swift. Sterne. Muitas fontes, e todas devidamente valorizadas pelo gigante Machadinho.

Outra coisa notável: Machado de Assis foi craque em vários tipos de texto. Romance, conto e crônica. Difícil dizer em qual ele foi melhor. Difícil mesmo. Depende do nosso estado de espírito na hora da leitura. Houve uma época em que preferi os romances. Depois, as crônicas. Depois, os contos. Hoje - e o que vou escrever não é definitivo - sou atraído pelos contos. Aproveitando o embalo, faço uma listinha dos contos indispensáveis de Machado de Assis. Eu, se fosse vocês, aproveitaria a deixa. Conto a gente lê mais rápido. Eu sei que a vida não é fácil para ninguém, mas, minha gente, dá para ler um conto por dia. Já está ótimo. Tempo: perto de meia hora. Sem mais delongas, a listinha:

1 - "Um homem superior"
2 - "A chinela turca"
3 - "Uma visita de Alcibíades"
4 - "A cartomante"
5 - "A causa secreta"
6 - "Capítulos dos chapéus"
7 - "O enfermeiro"
8 - "O espelho"
9 - "Missa do galo"
10 - "O caso da vara"
11 - "Teoria do medalhão"
12 - "Uns braços"
13 - "Trio em lá menor"

Para começarmos o jogo, está de bom tamanho. Claro que deixei de lado - quase chorando, reconheço - vários outros contos de fina estampa. Ao longo dos próximos textos, trarei outras preciosidades.

Para finalizar, uma sugestão: deixem para ler o conto "Pai contra mãe" por último. Vocês notarão o contraste dele com os anteriores. Um dos contos da fase final da carreira do escritor, "Pai contra mãe" deixa de lado o tom sedutor das outras narrativas. É a secura - tão rara em Machado - entrando em campo. Trata-se de uma narrativa dura, escrita por alguém indignado. Daqueles textos que nos acompanham pelo resto da vida.

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