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A vida intensa do conto

Uma vez, muito tempo atrás, eu estava matando o tempo numa livraria. Perto de mim, duas clientes estavam conversando. Não sou bisbilhoteiro, mas era impossível não ouvir o que as duas mulheres estavam dizendo. Elas pararam na frente da prateleira dos romances estrangeiros. Lá pelas tantas, uma delas pegou um livro muito grosso. A outra disse: "deve ser bom; livro grande é mais difícil de escrever". Confesso que fiquei um pouco aborrecido. Depois, mais tranquilo, pensei: "opa, mas muita gente pensa assim".

Sem meias palavras, quero dizer para vocês o seguinte: a qualidade de uma obra não depende do número de páginas. Evidente que muitos dos melhores livros de todos os tempos são volumosos: "Dom Quixote", "Guerra e paz"; "Decameron"; "Gargântua e Pantagruel", "Os irmãos Karamázov". A lista é vasta. Mas, vejam bem, há textos breves espetaculares, merecedores das maiores glórias. Se o critério de avaliação se pautasse exclusivamente pelo número de páginas, deixaríamos de lado as maravilhas de Manuel Bandeira, os contos certeiros de Tchekhov, as narrativas desconcertantes de Jorge Luís Borges. Combinemos: a boa literatura é um enorme abrigo, e nele cabem textos dos mais diversos tamanhos.

Hoje, gostaria de escrever a respeito do conto. Há quem veja o conto como o primo pobre do romance. São pessoas que pensam do seguinte modo: escrever um texto de cinco páginas é fácil; quero ver escrever um catatau de mil páginas. Claro que é difícil escrever mil páginas; mas por acaso é fácil escrever um texto altamente concentrado, em que cada palavra tem um peso crucial? Não é nada fácil. Há incontáveis relatos de autores que sofreram muito para escrever uma página que considerassem razoável. Trata-se de um trabalho de paciência e de modéstia. O contista é o artesão perfeccionista.

Não há quem não goste de um bom conto. Ouso dizer que a narrativa breve é vida concentrada. Quem não gosta de viver intensamente? Ler um bom livro de contos é ter contato com flashes poderosos. Há um outro elemento que nos atrai para os contos: por sua dimensão, eles lembram as histórias mais antigas, aquelas que embalaram o sono de muitas crianças. Histórias que nunca nos abandonam e que estão ligadas à tradição oral. É mera coincidência os contos de fadas serem extremamente enxutos? Portanto, o conto tem linhagem nobre.

O mundo do conto é rico, e nele há textos para todos os gostos. O conto pode ser muito movimentado ou delicadamente psicológico; pode arrancar lágrimas ou gargalhadas; pode nos levar a um mundo maravilhoso ou a um mundo tenebroso. O conto pode ser muita coisa, só não pode ser enfadonho. O contista tem poucas páginas para conquistar o leitor. Uma derrapada pode ser fatal. Uma frase desnecessária pode colocar tudo a perder. Quem escreve um conto caminha sobre gelo fino.

Há inúmeras teorias que abordam o mundo do conto. Muitas delas são interessantes; outras, abusam da paciência do leitor. De qualquer modo, uma das teorias mais conhecidas, elaborada por Julio Cortázar, um dos mestres do conto mundial, pode ser de grande valia para os leitores. Basicamente, Cortázar diz que o conto é uma luta de boxe entre escritor e leitor. Há, ainda segundo Cortázar, dois grande tipos de contos: os que vencem o leitor por nocaute e os que vencem o leitor por pontos. Os contos que ganham por nocaute estão estruturados em torno de um acontecimento decisivo. Tudo está subordinado a isso. O acontecimento agudo é o soco no queixo do leitor. Os contos que ganham por pontos também são chamados de "contos de atmosfera". Neles, há poucos acontecimentos marcantes. O que conta é o encadeamento de pequenas coisas. Chegamos ao fim desses contos impregnados das miudezas que o artista habilidoso soube concatenar. Não é o caso de dizer qual tipo de conto é melhor. Há coisas lindas em ambos os grupos. Abaixo, segue uma listinha de ótimos contistas. Entre parênteses coloquei se o autor ganha por nocaute ou por pontos.

- Edgar Alan Poe (nocaute)

- Anton Tchekhov (pontos)

- Katherine Mansfield (pontos)

- Flannery O?Connor (nocaute)

- Rubem Fonseca (nocaute)

- Dalton Trevisan (nocaute)

- Otto Lara Resende (nocaute)

- James Joyce (pontos)

- Maupassant (nocaute)

- Hemingway (nocaute)

 

A listinha que acabei de escrever está longe de ser abrangente, mas é um bom começo para quem quiser mergulhar no mar do conto. Acreditem em mim: saímos revigorados desse banho. Saímos mais perspicazes dessas leituras: passamos a entender que a vida pode ser decidida em poucos segundos. Não conheço melhor ilustração para a palavra "intensidade".

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